64 casas, uma região inteira em movimento: o renascimento do xadrez algarvio

O xadrez no Algarve vive um momento de dinamismo significativo, sustentado por uma estrutura organizacional clara e lideranças empenhadas em consolidar a modalidade na região, que alberga atualmente 8 clubes federados e 2 não federados, com 303 jogadores filiados e 24 árbitros distribuídos pelos diferentes clubes.

Este panorama representa uma transformação profunda comparada aos períodos de declínio que marcaram as duas últimas décadas.

Fotografia: Clube de Xadrez da SIRM

Clube de Xadrez da SIRM: da reativação ao dinamismo regional

Tiago Custódio, presidente do Clube de Xadrez da SIRM de Messines e vice-presidente da Associação de Clubes de Xadrez do Algarve, é uma figura central nesta reativação. A sua paixão pelo xadrez começou aos 10 anos, quando transitou da 4ª classe para o 5º ano e entrou numa turma onde não conhecia ninguém. O encontro com um colega que jogava xadrez transformou-se rapidamente num hábito: “E os nossos intervalos eram esses. Íamos para a biblioteca jogar xadrez só os dois e depois começaram a ir quatro, depois seis, depois oito”. 

Após algumas décadas, Custódio regressou a Messines e participou num torneio no Mar Shopping. A experiência foi reveladora: “E aí as coisas até correram bem, acho que até fiquei em quinto lugar”. A descoberta de que havia xadrez ativo na região motivou-o a reorganizar a modalidade localmente, “Telefonei a todos os meus amigos que na altura jogavam xadrez. Alguns já não jogavam, outros sim jogavam. E foi. Isto foi tudo há sete anos e meio. Criámos o clube. Começámos a ir a torneios. Éramos cinco ou seis na altura”.

O crescimento foi constante.

Fotografia: Clube de Xadrez da SIRM

 “Todos os meses iam a um torneiozinho aqui no Algarve em Faro. Há muitos torneios em Faro e em Loulé. Pronto era o que nós fazíamos, íamos lá e não havia assim grande obrigação”. O grupo expandiu-se progressivamente: “Mas só começámos a ir a uns e depois já éramos 6, depois já éramos 7, depois já iam de dois carros aos torneios”. Este crescimento justificou a formalização institucional. “E começámos a dizer, se isto esta realmente a correr tão bem, acho que faz sentido fazer um clube. O que que acham?”. Custódio dirigiu-se à Federação Portuguesa de Xadrez em Lisboa e o clube foi federado, estando federado há cerca de sete anos.

Atualmente, o Clube de Xadrez da SIRM possui 60 jogadores federados e participa na terceira divisão do Campeonato Nacional. O progresso foi notável: “O ano passado ficámos em quarto da terceira divisão. Gostaria muito de lutar pela subida”.

Ritmos de Competição: da estratégia à velocidade

O Clube de Xadrez da SIRM oferece oportunidades de treino em diversos formatos competitivos. Na terceira divisão, os jogos decorrem num ritmo clássico, com duração de uma hora e meia para cada lado e um incremento de 30 segundos, perfazendo em média 4 horas.

Custódio enfatiza a importância desta duração: “o modelo de clássicas é a prova rainha do xadrez que jogado com tempo permite que haja menos erros e com menos erros torna-se mais bonito ou seja, acaba por ser um bocadinho mágico porque quando não se engana o mérito da vitória é quase total”.

Além do clássico, o clube oferece outras variantes: “existe blitz, bullet, bullet minuto e depois existem as semi-rápidas, que é 15 minutos, 20”.

Capacidade de Organização: torneios internacionais

A expertise em organização de eventos é notória. “No início deste ano fizemos o primeiro Open Internacional de Silves. Foi uma prova que durou sete dias. E tivemos que organizar tudo”. Custódio é árbitro nacional e tirou o curso de árbitro nacional, com mais um colega no clube.

Para um torneio internacional, “tivemos que contratar um árbitro internacional porque para fazer o torneio internacional preciso um árbitro internacional”. A capacidade de organizar eventos desta magnitude demonstra profissionalismo institucional.

Paisagem Competitiva Algarvia: distribuição e representatividade

A distribuição geográfica de clubes reflete um cenário bem-estruturado. Custódio elucida:

Fotografia: Axal-Academia De Xadrez Do Algarve

“Na segunda divisão está a equipa de Loulé. E a equipa de lagos”. A nível da terceira divisão, “está o Clube de Xadrex da SIRM, o ADC Faro, a Axal em Faro e o núcleo de xadrez de Lagoa e está o Gil Eanes B, que a equipa é a secundária”.

Esta estrutura é fundamental. Custódio nota: “Portanto, estamos muito bem representados”. Quando criou o seu clube, “só havia três clubes. Hoje, não lhe quero mentir, clubes federados são oito. Clubes não federados, são dois”

Academia de Xadrez do Algarve: educação como foco

Ricardo Duarte, vice-presidente da Academia de Xadrez do Algarve (AXAL), trabalha numa perspectiva diferente.

A sua paixão pelo xadrez remonta à infância. “Aprendi a jogar xadrez por volta dos 9 anos de idade com um amigo meu que o pai lhe tinha ensinado. Éramos só nós dois, estamos a falar dos anos 80, e não conhecíamos rigorosamente mais ninguém”. O primeiro contacto com a comunidade organizada ocorreu através do Sporting Clube Farense, que “na altura era um clube muito rico em modalidades amadoras e xadrez era uma delas”

História dos Ciclos: anos 90 e o subsequente declínio

Ricardo oferece uma perspetiva histórica vital sobre os ciclos do xadrez algarvios. No início dos anos 90, “o xadrez de Algarvio teve um ressurgimento muito grande daquilo que já tinha tido nos anos 70. Mas desta vez teve um ressurgimento muito voltado para o panorama escolar com uma pessoa que divulgou muito o xadrez nas escolas”.

No entanto, este ciclo virtuoso foi interrompido de forma traumática. Ricardo explica: “O ciclo no Algarve encerrou-se dois, três, quatro anos depois, quando de facto essa dinâmica começou a esvaziar-se essencialmente porque a pessoa que dinamizava foi uma pessoa que adoeceu e depois deixou de poder fazer parte dessa dinâmica”.

Mais especificamente, Ricardo identifica: “No final dos anos 90 haviam muitos clubes como agora estão de novo a surgir, mas depois com essa infelicidade da pessoa adoecer, ele era o presidente da associação de xadrez de Faro, o senhor Armando Lopes. E ele adoeceu, teve um AVC, teve que se afastar e quando ele se afastou não havia estrutura”.

Fotografia: Axal-Academia De Xadrez Do Algarve

Fundação da Academia de Xadrez do Algarve: ressurgimento educacional

Quando o xadrez começou a reaparecer, foi sob uma perspectiva educacional diferente. A Academia de Xadrez do Algarve foi fundada em 2006. Ricardo descreve a sua missão original: “A Academia de Xadrez do Algarve, tinha inicialmente um objetivo de formação. Formar quem tivesse interessado, mas essencialmente sempre muito direcionado para as crianças e para os jovens. Formar para o xadrez, dar a conhecer o jogo, primeiro que tudo, através de ações em vários sítios”.

Durante longos anos, a Academia expandiu-se nas escolas. Ricardo relata: “Durante vários anos a Academia de Xadrez do Algarve esteve presente em muitas escolas, especialmente aqui da cidade de Faro, mas também nos arredores, mantivemos em Loulé, mantivemos em São Brás de Alportel durante vários anos estivemos em escolas a dinamizar o xadrez”.

Integração nas AECs: sucesso e subsequente contração

Este trabalho ocorreu no contexto das Atividades de Enriquecimento Curricular. Ricardo explica: “Depois, quando houve uma mudança das AECs, isso veio por água a abaixo. Entraram as empresas privadas, começaram a tomar conta das AECs e quando entraram as empresas privadas os outros projetos que eram de um carácter não tão económico, acabaram por sair fora”.

A mudança no modelo de negócio das AECs causou desligamento: “Quando entraram as empresas privadas… obviamente os monitores têm que ser pagos justamente. Eu não digo muito bem nem digo muito mal. Digo justamente. E normalmente quando o privado entra em ação, os monitores nunca são pagos justamente”

Associação de Clubes de Xadrez do Algarve: estrutura regional coordenadora

Tiago Custódio, na sua qualidade de vice-presidente da Associação de Clubes de Xadrez do Algarve, fornece contexto institucional. A associação foi fundada há cerca de 3 anos. Custódio esclarece:

Fotografia: ACXA – Associação dos Clubes de Xadrez do Algarve

“Esta associação, existia de outra forma, existia com o núcleo de xadrez do Algarve, que desapareceu e foi criada uma nova associação há cerca de 3 anos. Por três pessoas foi o Ricardo Duarte, o Tiago Custódio que sou eu, e o Paulo Luís. Portanto, um de Loulé, um de Faro e um de Messines”.

Esta estrutura descentralizada foi deliberada. Custódio continua: “Desde que se federou tudo, criaram-se condições para que hoje esta associação esteja bem de saúde e que dê condições realmente aos jogadores e às cidades para terem estas provas”.

Competições Organizadas Pela Associação

Custódio descreve o calendário competitivo rigoroso que a associação oferece. “A missão é a promoção dos xadrez e o aparecimento de novos clubes na nossa região”. As provas são diversificadas: ” nós todos os anos organizamos os torneios. Temos o campeonato distrital individual absoluto. Temos os campeonatos por equipas, temos os campeonatos de rápidas, temos os campeonatos de lentas”.

A frequência é impressionante: “Quase todos os fins de semana há xadrez no Algarve em diferentes sítios, mas quase todos os fins de semana há no Algarve. Provas oficiais sempre, portanto fáceis de aceder para quem está no meio deste mundo do xadrez”.

Dados da Associação: crescimento documentado

Tiago fornece números precisos sobre a estrutura associativa. “Neste momento no Algarve estão afiliados 303 jogadores. E árbitros existem 24, num total de oito clubes”.

A arbitragem é distribuída de forma inteligente. Tiago explica: “Existe um comité de arbitragem que define os árbitros para cada sítio, por norma por exemplo se o torneio agora este fim de semana o torneio passou por Messines portanto eu é que vou ser o árbitro. O próximo fim de semana vai ser em Loulé, vai ser um árbitro de Loulé”. Tiago sublinha a importância: “Por isso é muito importante haver muitos árbitros no Algarve. Ou seja, poderem jogar e poderem arbitrar também.”

Dimensão Educacional: xadrez como pedagogia.

Ricardo apresenta uma abordagem diferenciada do xadrez, trabalhando com crianças de varias idades “entre os grupos que eu dinamizo aqui em Faro, nós temos neste momento perto de 30 alunos crianças, têm todos menos de 17 anos. E os mais novos têm 6, 7”.

As crianças chegam ao xadrez de diversas formas: “Eles estão nos xadrez porque sentiram uma curiosidade pelo jogo, pediram aos pais, e se calhar alguns até aprenderam comigo na escola primária e depois mais tarde decidiram vir continuar aqui”. Há também pais que os incentivam, porque já começam a perceber ” de certas debilidades que uma criança possa ter, certas dificuldades”.

Ricardo oferece uma perspetiva pedagógica distinta: “Eu não vou para as escolas ensinar xadrez para depois trazer miúdos para o clube. Eu como faço isto há muitos anos, há 15 anos que eu ensino xadrez nas escolas, eu ensino xadrez de uma outra perspetiva, eu uso o xadrez como uma ferramenta. Uma ferramenta para desenvolver competências nas crianças”.

A diferença é fundamental: “Não há uma necessidade, nem sequer um interesse real, em que a criança saiba jogar bem xadrez. Há um interesse que ela conheça o jogo e tenha gosto por ele, primeiro que tudo”. Continuando: “E depois de, obviamente, dominar as regras do jogo, nós conseguimos, através do jogo que está ali, 64 casas um ambiente fechado, um ambiente seguro, nós conseguimos utilizá-lo para que a criança enfrente e supere algumas das suas dificuldades em diversos níveis”

Fotografia: ACXA - Associação dos Clubes de Xadrez do Algarve

Desafio Demográfico: a geração ausente

Custódio identifica um padrão demográfico preocupante no seu clube: “Há muitas pessoas dos 10, 11 anos. Existem muitas pessoas federadas na faixa dos 4, e há muitas pessoas federadas na parte dos 60 e tal. Então falta muito aquela geração dos 20 e tal anos”.

Ricardo confirma este fenómeno a nível nacional: “Eu sei que a maior parte dos miúdos/ crianças, quando chegam aos 13, 14 anos de idade, entram na adolescência, 80% deles desistem do xadrez”. Continuando: “Isto acontece por responsabilidade do clube e por responsabilidade da escola. É uma questão em que não há cultura do xadrez, nem do desporto no nosso país”

Maiores desafios: reconhecimento e investimento municipal

Ricardo identifica o principal obstáculo ao desenvolvimento: “Os maiores desafios são o reconhecimento do xadrez enquanto atividade indispensável para o desenvolvimento escolar do indivíduo, do aluno”. O problema é estrutural: “Os municípios neste momento não são receptivos a esse fenómeno. Preferem entregar para empresas e ter custos baixíssimos com isso. Não há uma preocupação com o crescimento do indivíduo ou da criança. É assim uma ocupação de tempos livres. Seja de que forma for”.

André Jesus e a universidade: uma iniciativa inovadora

André Jesus, criador do Clube de Xadrez da Universidade do Algarve, representa uma geração diferente. Ele nem foi jogador competitivo antes de criar o clube. André relata:

Fotografia: CXUALG – Clube de Xadrez da UAlg

“Para ser honesto, a ideia surgiu numa conversa de almoço aqui com um professor de bioquímica e chegámos à ideia que era interessante um clube de xadrez. E eu pensei, porquê não? E pronto, mais ou menos foi assim que surgiu”.

A adesão tem sido surpreendente: “Tem sido uma surpresa. Eu pensei que fosse mais lento e que não tivesse tanta influência, mas por o que eu sei, sempre que eu passo na biblioteca está sempre tudo cheio”.

O modelo é simples mas funcional: “Neste momento agora está só aberto, tem os tabuleiros nas bibliotecas. E quem quiser jogar esta livre de fazer. Não precisa estar inscrito e tem corrido tão bem que até agora tenho deixado basicamente de andar por si e tem sido autossustentável nesse sentido”.

Reconhecimento Internacional e Desafios de Sustentabilidade

O Clube da SIRM alcançou visibilidade internacional inesperada. Tiago relata: “Graças ao torneio internacional, a gente pôs o nosso clube além fronteiras e tivemos a sorte de angariar um grande mestre que veio e queria jogar em Silves”. Este sucesso criou dilemas: “E isso levou a que a gente arranjasse aqui sérios problemas porque não sei se tem noção, Existem grandes clubes a nível nacional”.

O contraste orçamental era brutal: “Este ano o Vitória Guimarães, não me quero enganar, que foi campeão nacional da primeira divisão, tinha um orçamento de 70 mil euros”. O talento eventualmente foi absorvido por um clube maior.

Visão de Ricardo para o futuro

Ricardo vê esperança em iniciativas como a de André Jesus e reflete: “Quando surgem pessoas que têm iniciativas como a que o André teve, Completamente despreocupado da questão, sem ambições… Esse o tipo de coisas que eu estava a dizer, esse é o tipo de pessoas que, de alguma maneira, eu acho que vão conseguir fazer com que as modalidades amadoras, com pouco reconhecimento e com pouca expressão no nosso país consigam”.

Fotografia: Clube de Xadrez da SIRM

Uma Região em consolidação

O xadrez no Algarve representa um caso de estudo sobre ciclos regionais de desenvolvimento desportivo. A região possui estruturas consolidadas: 8 clubes federados, 303 jogadores filiados, 24 árbitros, e uma associação regional que organiza competições regulares quase todos os fins de semana. Os líderes — Tiago Custódio na dimensão competitiva e organizacional, Ricardo Duarte na dimensão educacional, e André Jesus na inovação universitária, demonstram dedicação e visão.

No entanto, persistem desafios sistémicos: falta de apoio municipal consistente, dependência de indivíduos-chave, ausência de cultura xadrezista enraizada na sociedade, e desistência maciça de adolescentes após os 13-14 anos. O futuro do xadrez algarvio dependerá da capacidade de transformar estas iniciativas pontuais em estruturas institucionais duráveis e de convencer as autoridades municipais sobre o valor estratégico do xadrez como ferramenta educacional e de desenvolvimento humano.

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