Os Mundiais de Futebol nunca foram apenas simples torneios. São pausas coletivas no ritmo do mundo, momentos em que fronteiras se diluem, relógios param e países inteiros passam a falar a mesma língua durante noventa minutos. De quatro em quatro anos, o planeta organiza-se à volta de um campo retangular e decide, quase sempre de forma injusta e emocional, quem merece ser lembrado para sempre e quem carregará o peso de um instante mal resolvido.
A primeira edição, em 1930, ofereceu já uma história que parece saída de um romance. Héctor Castro, uruguaio que perdeu um braço num acidente aos 13 anos, marcou na final e ergueu a taça “vitória”. Um herói improvável, cuja força não está apenas na bola, mas na capacidade de transformar uma limitação física numa narrativa de superação. Castro é a prova de que o Mundial sempre foi um palco que fabrica histórias maiores do que o próprio jogo.
O Brasil entrou no mapa dos heróis com Pelé, tricampeão mundial (1958, 1962, 1970), o adolescente que brilhou aos 17 anos e que transformou o país no “país do futebol”. Pelé personifica aquilo a que se chama símbolo que transcende o tempo, não apenas por títulos, mas pelo modo como o mundo passou a olhar o futebol brasileiro. Rossi, em 1982, e Maradona, em 1986, mostram outro tipo de heróis: aquele que surge do contexto adverso ou que se torna herói mesmo em gestos contraditórios. Sobre Maradona, o jornalista Rui Miguel Tovar destaca o seu apoio à seleção argentina na final da competição. A atuação do astro durante a competição, sobretudo frente à Inglaterra com um golo de mão e outro a driblar meia equipa, deu força à frase “só acredito em Deus porque o vi jogar”. Reza a lenda que milhares de italianos deixavam a sua seleção em segundo plano para apoiar Diego Armando, o mesmo jogador que é herói e vilão no mesmo instante, dependendo da perspetiva, e essa ambiguidade é uma característica da competição.
Esta narrativa continua em 1994 com Romário, quase fora da convocatória por conflitos internos, mas que chegou aos Estados Unidos e levou o Brasil ao tetra com a ajuda da sua dupla Bebeto. Em 1998, Zidane assumiu o protagonismo: autor de dois golos na final contra o Brasil, contribuiu para uma vitória histórica por 3-0. Ronaldo em 2002, ao cortar o cabelo em formato “cascão” e focar-se no desempenho, transformou-se no herói que devolveu o Brasil ao topo, mostrando como a construção mediática pode-se alinhar com gestos individuais. Tovar observa que “gostamos mais de certos jogadores com o passar do tempo”, e Messi, em 2022, é talvez o exemplo perfeito: depois de perder várias finais, ser vilanizado e carregado de críticas, conquistou o Mundial no Qatar e recolocou a Argentina no topo do Mundo, 36 anos depois.
O heroísmo não precisa de finais felizes ou de títulos. A seleção do Panamá em 2018 e Cabo Verde em 2026 simbolizam a história da superação e do orgulho nacional. São heróis antes mesmo de entrarem em campo, lembrando que o conceito de herói no futebol é muitas vezes antecipado e construído pela narrativa coletiva. Tovar lembrou os casos da Jamaica em 78 e Haiti em 74: “Há um jogador do Haiti que marcou dois golos em dois jogos, o Sanon. É altamente meritório, extraordinário.”
Mas o Mundial também fabrica vilões – às vezes injustamente. Contextos políticos pesaram nos Mundiais de 1934 e 1938. Barbosa, no Maracanazo de 1950, tornou-se o rosto de uma derrota que foi de todos, sendo perseguido por racismo até aos seus últimos dias. Tofiq Bahramov, árbitro auxiliar em 1966, entrou para a história por validar o golo polémico da Inglaterra, mesmo que não tivesse intenção de criar controvérsia e hoje dá nome ao principal estádio de Azerbeijão. Roberto Baggio, com o penálti falhado em 1994, foi vilanizado pela mídia, embora contra a opinião de Tovar, enquanto Andrés Escobar, na mesma edição, foi assassinado, supostamente vítima de um assalto, logo depois de marcar um autogolo. Uma amostra de que, infelizmente, o peso simbólico pode ser mortal. A derrota do Brasil em 1998 frente à França gera teorias de conspiração sobre a venda da partida final – o famoso email “se vocês soubessem da verdade ficariam enojados” – que nunca passou de rumor, mas reforça a necessidade humana de encontrar rostos para culpar. Em 2006, a cabeçada de Zidane na final humaniza o astro que já havia sido colocado num pedestal, mas também simboliza a ruína de um país que tinha depositado todas as expectativas nele. Já em 2014, Luiz Felipe Scolari, ex-treinador da seleção portuguesa, carregou o peso de um duro 7-1 em casa contra a Alemanha. Em 2022, a FIFA assume um papel de vilã estrutural, pelas crises humanitárias e mortes na construção dos estádios do Qatar.
A vertente psicológica destes rótulos é profunda e muitas vezes ignorada. O psicólogo desportivo Miguel Santos explica: “Ser colocado na categoria de herói ou vilão altera a perceção que o atleta tem de si próprio. O herói sente pressão para corresponder, muitas vezes adoece emocionalmente com a expectativa, enquanto o vilão pode desenvolver ansiedade e até sintomas depressivos por ser reduzido a um erro.” A memória coletiva amplifica a intensidade: “Um jogador que falha um penálti ou sofre uma derrota histórica vive o momento repetido infinitamente na televisão e nas redes sociais, como se fosse uma ferida aberta. Isso não desaparece com o tempo.” É nesta construção que o Mundial se torna uma arena psicológica tanto quanto física.
O relato de Rui Miguel Tovar reforça isto: o jornalista lembra o Mundial de 1986 e a magia à volta da competição: “Havia algo que transcendia o campo. Eu não sei se queria ver o jogo, o árbitro português ou simplesmente ouvir o meu pai, mas a memória ficou ligada a emoções muito concretas.” Esta ligação entre memória afetiva e narrativa mediática transforma cada erro e cada golo em símbolo. Um herói ou vilão não é apenas aquilo que aconteceu; é aquilo que todos repetem, lembram e amplificam.
A grandeza do futebol não se mede apenas em troféus levantados, mas na sua capacidade de transformar gestos simples, erros humanos e momentos de génio em símbolos que atravessam gerações. Ao revisitar os Mundiais, percebe-se que a história é mais importante que o resultado: Pelé, Maradona, Romário, Zidane, Messi e seleções como Panamá e Cabo Verde são heróis por histórias de vida, escolhas e impacto coletivo. Barbosa, Baggio, Escobar, Scolari ou mesmo a FIFA são vilões porque o palco exigiu rostos que sustentassem as narrativas de derrota.
Com o Mundial de 2026 à porta, Portugal espera os seus heróis. Tovar comenta que “o próximo herói pode ainda não ter tocado na bola, pode ser qualquer um, mas gostaria que fosse o João Neves.” Éder já tem espaço simbólico na memória, mostrando que a construção do herói não depende apenas de títulos, mas de momentos que ficam gravados para sempre.
O Mundial é, no fundo, um palco onde se projetam expectativas que nenhum ser humano consegue sustentar sem falhas. O que permanece são histórias: heróis que inspiram, vilões que ensinam, memórias que atravessam gerações e jogadores que vivem a experiência de serem lembrados muito depois do apito final. É esta capacidade de transformar futebol em mito que mantém viva a emoção de cada quatro em quatro anos, e nos lembra que, no fim, são as histórias que ficam.
