A capital algarvia é uma cidade onde a história e as lendas se cruzam a cada esquina, especialmente junto às suas muralhas antigas – ou, como dizem os locais, ‘vila adentro’. No Museu Municipal de Faro guardam-se muitas dessas memórias que o tempo não apagou. Jorge Manhita, investigador e colaborador do museu há cerca de 30 anos, falou connosco sobre os objetos históricos, as tradições e os mitos que continuam vivos na identidade da cidade.
Uma região com memória
Instalado num antigo convento, o Museu Municipal de Faro é um espaço onde diferentes épocas da história da cidade se encontram. Pelas suas salas, é possível observar vestígios que vão desde a época romana até períodos mais recentes, incluindo peças arqueológicas, arte sacra e elementos ligados às tradições locais.
Segundo Jorge Manhita, o museu não se limita a guardar objetos, mas procura dar-lhes contexto e significado. As exposições ajudam a contar a história da cidade de forma acessível, permitindo que tanto visitantes como habitantes compreendam melhor a evolução da cidade ao longo do tempo. Destacam-se as salas dedicadas à arqueologia, duas da época romana e uma da época árabe, que mostram a diversidade cultural que marcou a região.
Apesar da importância crescente dos meios digitais, o contacto direto com o património continua a ser insubstituível. Ainda assim, o museu tem acompanhado os novos tempos, utilizando redes sociais e plataformas digitais para divulgar o seu trabalho e chegar a novos públicos, mantendo uma ligação entre tradição e modernidade.
Passados lendários
Para além da história documentada, Faro é também uma cidade de lendas. Muitas dessas histórias estão associadas às suas muralhas e fazem parte da tradição oral que continua a ser transmitida ao longo das gerações.
Uma das mais conhecidas é a lenda da Moura Encantada, ligada à conquista da cidade em 1249 pelo rei D. Afonso III de Portugal. Conta a história de um cavaleiro cristão que se apaixonou por uma princesa moura.
Após a abertura de uma porta da cidade, que permitiu a entrada das tropas cristãs, o rei mouro acreditou que a filha o tinha traído e lançou-lhe uma maldição. A princesa desapareceu, ficando encantada nas muralhas, onde, segundo a tradição, ainda hoje vagueia.
Outra história é a lenda de Santa Maria, associada a uma imagem da Virgem Maria que se encontrava nas muralhas da cidade. Durante o domínio muçulmano, essa imagem foi retirada e lançada ao mar. A partir desse momento, os pescadores deixaram de apanhar peixe. Percebendo que se tratava de um castigo, decidiram recuperá-la e colocá-la novamente no seu lugar. Depois disso, o peixe voltou em abundância, reforçando a crença no valor simbólico da imagem.
Por fim, destaca-se a lenda da imagem de São Tomás de Aquino, ligada ao Arco da Vila. No início do século XIX, durante um surto de peste, a população pediu proteção a Tomás de Aquino. Como a cidade não foi atingida, considerou-se que tinha ocorrido um milagre. Em agradecimento, o bispo Francisco Gomes do Avelar mandou vir de Itália uma imagem do santo. No entanto, os operários não conseguiam colocá-la no nicho. Conta a lenda que, após o bispo ter falado com a imagem, esta foi colocada sem dificuldade, tendo ficado com um dos joelhos ligeiramente dobrado para caber no espaço.

Estas histórias não podem ser comprovadas em todos os seus detalhes, mas continuam a fazer parte da identidade da cidade, tal como o museu. No fundo, entre objetos, muralhas e histórias transmitidas ao longo do tempo, permanece a ideia de que conhecer o passado, seja ele histórico ou lendário, é uma forma de compreender melhor o presente e manter viva a alma farense.
